
Entrevistador: Sri Chinmoy, por favor, fale-me sobre você. Onde você nasceu?
Sri Chinmoy: Nasci em Chittagong em 1931. Vim para Pondicherry aos doze anos de idade. Depois, fiquei aqui no Ashram de Sri Aurobindo por vinte anos. Frequentei a escola do Ashram. Naquela época, não havia curso superior. Estudei por alguns anos, mas não concluí o ensino médio… Meu irmão mais velho veio primeiro, depois meus outros irmãos e irmãs. Eu era o mais novo, então vim para cá em 1944. Em 1964, parti para os Estados Unidos.
Entrevistador: Por que o senhor deixou Pondicherry?
Sri Chinmoy: Dois americanos vieram ao Ashram. Eles viram algo em mim e me convidaram para ir para os Estados Unidos. Meu último emprego aqui foi como secretário do Secretário Geral do Ashram de Sri Aurobindo, Nolini Kanta Gupta. Ele era um escritor renomado, admirado por Tagore. Era o principal secretário da Mãe e de Sri Aurobindo. Eu fazia o trabalho de escritório para ele, além de traduzir seus escritos do bengali para o inglês…
Entrevistador: O que o senhor tinha em mente antes de ir para os Estados Unidos? O que o fez aceitar o convite?
Sri Chinmoy: Recebi uma mensagem interior. Desde o início da minha vida, tenho orado e meditado. De dentro, veio a mensagem de que eu deveria ir e servir aos Estados Unidos. Há muitas pessoas no Ocidente que buscam a realização espiritual. Eu tinha um visto para ficar apenas três meses. Então, me candidatei a um emprego no Consulado da Índia em Nova York e consegui. Tive muita sorte. Eu não tinha nenhuma formação acadêmica formal. Não concluí o ensino médio porque não havia curso superior no Ashram. Estudei em Chittagong até a sétima série e depois vim para Pondicherry. Eu era autodidata. Quando me candidatei ao cargo de escriturário, havia três graduados e dois com mestrado que também se candidataram. Eu era o único sem formação acadêmica formal. Mas o Cônsul da Seção de Passaportes e Vistos me deu o emprego, então fui salvo.
No Consulado da Índia, após três meses, eles avaliam seu trabalho para ver se você é um bom funcionário ou não. Se o seu trabalho não for bom, eles o demitem. Mas, no meu caso, depois de apenas treze dias, o Cônsul me tornou efetivo. Ele agora é um amigo muito próximo. O nome dele é L.L. Mehrotra. Trabalhei no Consulado da Índia por dois anos.
Nesse meio tempo, muitos amigos me ajudaram consideravelmente a conhecer pessoas interessadas em espiritualidade, filosofia indiana e religião indiana. Meus colegas e meus chefes no Consulado da Índia também estavam muito interessados, não em se livrar de mim, mas que eu seguisse meu próprio caminho, que é a espiritualidade…
Entrevistador: Mas você não tinha nenhuma ligação formal com nenhuma organização?
Sri Chinmoy: Eles vieram me encontrar porque tinham ouvido falar de mim. Nos meus primeiros anos nos Estados Unidos, dei muitas palestras em universidades.
Entrevistador: Sobre filosofia indiana?
Sri Chinmoy: Filosofia indiana e minha própria filosofia.
Entrevistador: O que é essa missão de paz? Qual tem sido a sua contribuição?
Sri Chinmoy: Depois de dar palestras sobre espiritualidade em vários lugares, fui convidado a abrir centros onde as pessoas vêm para orar, meditar e ler meus escritos. Como também sou músico, realizei muitos concertos em todo o mundo. Há vinte e nove anos, ofereço meditações nas Nações Unidas. Todas as terças e sextas-feiras, vou lá entre uma e duas horas para meditar em silêncio, e aqueles que se interessam pela vida espiritual vêm meditar comigo. Também dei muitas palestras nas Nações Unidas. Elas foram compiladas em um livro chamado A Guirlanda das Almas Nacionais. Minhas palestras em várias universidades também foram publicadas em livros, como Além do Interior, Luz Oriental para a Mente Ocidental e A Promessa Interior. Essas são algumas das minhas principais obras. Através desses livros, as pessoas me conheceram.
Nossa missão é como uma planta, crescendo e crescendo e crescendo. A semente foi plantada quando cheguei à América. Agora, buscadores do mundo inteiro vêm até mim, e se tenho oportunidade, visito seus países.
Entrevistador: Como a meditação ajuda nessa sua missão de paz?
Sri Chinmoy: Como alcançaremos a paz sem oração e meditação? Não há outro caminho. Os políticos falam de paz. No instante seguinte, vão brigar. Portanto, meu método não tem nada a ver com política, embora muitos políticos sejam muito gentis e afetuosos comigo. Quando me encontro com políticos do mais alto escalão, meditamos juntos e buscamos promover a paz interior.
Entrevistador: Então o senhor permite que seus sentimentos interiores venham à tona.
Sri Chinmoy: Eu os inspiro a trazer à tona seu próprio amor a Deus. Este é o meu principal trabalho. Eu não os ensino; eu os inspiro. Quando ofereço concertos pela paz, milhares de pessoas oram e meditam comigo. Eu toco diferentes instrumentos musicais e canto por cerca de duas horas. Os amantes da paz que vêm me ouvir me inspiram, e eu os inspiro. Tudo se baseia na inspiração. Se estivermos inspirados, nos tornaremos bons cidadãos do mundo. Se não estivermos inspirados, faremos todo tipo de coisa impura.
Entrevistador: Então, seus discípulos estão difundindo sua missão nesses países?
Sri Chinmoy: Tenho discípulos em todo o mundo, nesses 28 países e em muitos outros. Meus alunos oram e meditam coletivamente em dias específicos em seus respectivos centros. Eles também meditam em casa de manhã e à noite.
Entrevistador: Gostaria de saber brevemente sobre sua filosofia.
Sri Chinmoy: Minha filosofia é a aceitação da vida. Algumas pessoas negligenciam o mundo; elas se isolam em cavernas no Himalaia. Eu não quero isso. Quero que as pessoas orem e meditem para termos um mundo melhor. Quero inspirar as pessoas a se tornarem bons cidadãos do mundo. Para isso, todos nós precisamos orar e meditar, e precisamos oferecer benevolência a todos os seres humanos.
Entrevistador: Então, o senhor acredita que a paz virá ao oferecermos benevolência a todos os seres humanos?
Sri Chinmoy: Sim, esse é o único caminho. Se eu lhe oferecer boa vontade e você me oferecer boa vontade, não brigaremos, não lutaremos. Porque não oferecemos boa vontade uns aos outros, este mundo está cheio de conflitos e mal-entendidos. Se orarmos e meditarmos, não nos desentenderemos, porque a oração purifica nossa mente. Se tivermos pureza em nossa mente, em nosso coração, então não brigaremos, não lutaremos. Essa é a minha filosofia muito simples. O principal é a aceitação da vida. Não se isole nas cavernas do Himalaia. Não negligencie seus deveres na Terra. Você deve cumprir seus deveres.
Eu moro nos Estados Unidos. Minha irmã faleceu recentemente e eu vim aqui para ver meu irmão. Eu poderia ter dito: “Estou orando, estou meditando. Tenho milhares de discípulos. Não preciso ir para a Índia.” Não, meu dever é vir e estar aqui com meu irmão, então cancelei minhas atividades. Eu deveria ir para a Noruega, Suécia, Irlanda e Polônia, mas disse: “Não. Agora, minha irmã é a pessoa mais querida para mim. Essas coisas podem ser resolvidas daqui a algumas semanas.” No meu caso, o dever é de suma importância.
Minha filosofia é a aceitação da vida. Temos que aceitar a vida — não fugir dela ou nos refugiar nas cavernas do Himalaia. Aqui na Terra, temos que oferecer boa vontade, inspiração e aspiração. Temos que amar e servir a humanidade. Só assim este nosso mundo poderá ser transformado. Há muitos, muitos que são conhecidos externamente como políticos, mas interiormente são os mais sinceros amantes da verdade e de Deus. É por isso que são meus amigos. Estamos navegando no mesmo barco.
Entrevistador: Entendo que se pode apreciar a música sem conhecer o idioma. Mas o que eu gostaria de entender é como isso ajuda sua missão de paz.
Sri Chinmoy: Quando as pessoas estão felizes, elas não brigam. Paz e alegria andam juntas. Se eu estiver realmente feliz, permanecerei em paz. Não discutirei com você. Não brigarei com ninguém. Um santo é pacífico. Ele não discute com ninguém. Ele apenas ora e medita. Quando um cantor canta com muita alma, de forma comovente, você acha que ele tem algum tipo de animosidade dentro de si? Não. As pessoas que cantam com muita alma e de forma comovente nos inspiram.
Como eu disse antes, nossa tarefa é inspirar uns aos outros. Música, arte e outras coisas inspiram as pessoas. Quando entramos em um jardim, vemos a beleza das flores. Sentimos a fragrância. Então, temos alegria interior. Quando temos alegria interior, estamos em paz. Se não temos alegria, então sentimos que o mundo está cheio de conflitos e mal-entendidos. A música espiritual nos ajuda consideravelmente porque tem alegria nela. A verdadeira alegria e a paz são inseparáveis. Se você está em paz, você está feliz, e se você está feliz, você está em paz.
Entrevistador: Entendo que você é um campeão de levantamento de peso.
Sri Chinmoy: Eu levantei muito peso. Há cerca de dois meses, levantei 90 quilos com cada braço simultaneamente, e isso foi exibido em cerca de setenta emissoras de televisão.
Entrevistador: De onde vem toda a sua força?
Sri Chinmoy: Minha força vem toda da Graça e da Compaixão de Deus.
Entrevistador: Por causa da sua meditação?
Sri Chinmoy: Porque eu oro e medito. Mas quando oro e medito, não peço a Deus que me dê força para levantar peso.
Entrevistador: Você acha que é um Dom de Deus?
Sri Chinmoy: Absolutamente. Se não fosse um Dom de Deus, como eu poderia fazer tantas coisas?
Entrevistador: Você faz algum treinamento em levantamento de peso?
Sri Chinmoy: Sim, eu treino. Todos os dias, passo três horas me exercitando. Uma hora faço exercícios de alongamento. Depois, por duas horas, levanto pesos pesados.
Como eu disse, a aceitação da vida em seus diversos aspectos é a minha filosofia. Caso contrário, eu não teria conseguido fazer tantas coisas. Eu dependo inteiramente da Graça de Deus. Por causa da Sua Graça, pude escrever tantas canções e tantos livros, e visitar tantos países.
Entrevistador: O senhor atribui todo o seu sucesso a Deus?
Sri Chinmoy: Atribuo 100% a Deus. Sei que não sou nada, mas com a Graça de Deus tudo é possível.
Trechos de uma entrevista concedida ao jornal diário Indian Express, realizada em Pondicherry, Índia, em junho de 1999.
Sri Chinmoy, Sri Chinmoy answers, part 23, Agni Press, New York, 2000
O mundo jamais conhecerá a vida interior de um Mestre espiritual. Um discípulo escreveu minha biografia e outros escreveram sobre mim, mas se eu tivesse que registrar minha vida interior, haveria centenas de livros, muitos e muitos volumes, como o Mahabharata indiano. A vida interior de um Mestre espiritual é infinitamente mais significativa do que sua vida exterior.
Todos os Mestres espirituais têm uma vida interior. Nessa vida interior, bilhões de coisas acontecem; infelizmente, elas não são registradas. E se o próprio Mestre não as conta, se ele mesmo não as escreve, quem as registrará? Quantas coisas acontecem na vida exterior? Na minha vida exterior, realizei alguns milagres. Sou totalmente contra mostrá-los, mas realizei alguns. Mas na vida interior, não há um único dia, eu lhes digo, em que eu não realize milagres.
Aqui, precisamos saber que tipo de milagres um Mestre realiza. Digamos que um discípulo se deixe cair nas profundezas da depressão, no abismo da depressão. Nesse momento, se o Mestre o erguer, mesmo que apenas um pouco, isso não é um milagre? O discípulo está afundando, afundando; e o Mestre o está puxando. Elevar a consciência de um buscador no mundo interior, isso não é um verdadeiro milagre? No caso dos meus discípulos, se eu não os amparasse e elevasse sua consciência a cada instante, digo-lhes que meu barco se esvaziaria imediatamente. Este é o verdadeiro milagre que realizo no mundo interior.
Precisamos saber de que tipo de milagres necessitamos. Os milagres que alguns Mestres realizam não elevarão nossa consciência nem um pouco. Se tivermos curiosidade, ela será alimentada por esse tipo de milagre. Mas quando se trata de elevar nossa consciência, elevar nosso padrão a um nível em que recebemos Paz, Luz e Bem-aventurança, esse é o verdadeiro milagre interior. O mundo exterior não oferece paz de espírito. O mundo exterior é como um elefante enfurecido. Mas quando oramos e meditamos, a alegria e a paz que recebemos, não são um milagre? Neste mundo, obter um pouco de paz, uma ínfima parcela de paz, é o verdadeiro milagre. Para os seres humanos, ter um pouco de paz por alguns segundos é um verdadeiro milagre divino…
Sri Chinmoy, The Master’s inner life, Agni Press, New York, 1977
