Aqui estão são três das posturas mais comuns que observamos nos caminhos e métodos que levam ao autoconhecimento. Em alguns caminhos, elas não são excludentes. Um buscador pode usar o autoconhecimento, a devoção e o serviço concomitantemente para chegar na sua meta. Em outros caminhos, um foco claro é dado a um tipo, a ponto de minimizar a importância dos demais aspectos na busca. Por fim, o seu caminho será o melhor para si, e não deve ser comparado com os demais.

Três caminhos ou métodos para o autoconhecimento

Em particular, há três métodos, formas ou caminhos de yoga (ou ioga) que são encontradas nas religiões e caminhos espirituais: jnana yoga (ir além da mente), bhakti yoga (devoção), karma yoga (ação).

Hoje em dia, yoga é comumente associada com uma série de exercícios físicos, buscando equilíbrio dos nervos e proporcionando saúde. Mas quando se fala em espiritualidade, yoga não está relacionada com exercícios físicos. É uma questão de busca interior, de prática espiritual (como a oração e a meditação). Os exercícios físicos são agrupados de maneira geral como hatha yoga e servem para trazer saúde e estabilizar nosso sistema nervoso. Mas, por si só, não levam o ser humano à sua meta. É necessário exercitar nossa aspiração e transcender limitações internas e externas, através dos tipos de yoga tradicionais.  Hatha yoga e os tipos de yoga espiritual são complementares.

Os três métodos de autoconhecimento: BHAKTI YOGA, KARMA YOGA E JNANA YOGA

Texto de Sri Chinmoy, do livro Yoga e A Vida Espiritual

Bhakti Yoga

Peça a um homem para falar sobre Deus, e a sua resposta será interminável. Peça a um Bhakta para falar sobre Deus, e ele dirá apenas duas coisas: Deus é todo Afeição, Deus é todo Doçura. O Bhakta vai até um passo adiante e diz: “Eu posso tentar viver sem pão, mas eu não posso nunca viver sem a Graça do meu Senhor.”

A oração de um Bhakta é muito simples; “Ó meu senhor Deus, entre em minha vida com Vosso Olho de Proteção e com Vosso Coração de Compaixão.” Esta oração é a maneira mais rápida de bater à Porta de Deus e também o caminho mais rápido para ver Deus abrir a Porta.

Um Karma iogin e um Jnana iogin podem sofrer um momento de dúvida sobre a existência de Deus. Mas um Bhakta não tem sofrimento dessa espécie. Para ele, a existência de Deus é uma verdade axiomática. Mais do que isso, é o sentimento espontâneo do seu coração. Mas, ora, ele também tem de passar por uma espécie de sofrimento. É dele o sofrimento da separação do seu Bem-amado. Com as lágrimas do seu coração de devoção, ele chora por restabelecer sua união dulcíssima com Deus.

A mente racional não encanta o devoto Bhakta. Os fatos duros da vida falham em chamar a sua atenção, falham em tentar absorvê-lo. Ele quer viver constantemente em um mundo onde esteja embriagado por Deus.

Um devoto sente que quando caminha em direção a Deus, Deus corre em direção a ele. Um devoto sente que quando pensa em Deus por um segundo, Deus chora por ele por uma hora. Um devoto sente que quando vai a Deus com uma gota do seu amor para aplacar a sede incessante Dele, Deus o envolve no mar do Seu Amor ambrosíaco.

A relação entre um devoto e Deus nunca pode ser sentida, nunca descrita. O pobre Deus pensa que nenhum homem na Terra é capaz de capturá-Lo, pois Ele não tem preço e não pode ser avaliado. Mas ora, Ele esqueceu que já concedeu devoção ao Seu Bhakta. Para Sua maior surpresa, para Sua alegria mais profunda, A devoção entregue do seu devoto é capaz de capturá-Lo.

Há pessoas que zombam do Bhakta. Elas dizem que o Deus do Bhakta nada mais é do que um Deus pessoal, um Deus infinito com Forma, um ser humano glorificado. Para eles eu digo: “Por que não pode um Bhakta sentir isso?” Um Bhakta sente sinceramente que ele é uma gota pequenina e que Deus é o Oceano infinito. Ele sente que o seu corpo é uma porção infinitesimal de Deus, o Todo ilimitado. Um devoto pensa em Deus e ora a Deus à sua própria imagem. E ele está absolutamente certo em fazê-lo. Apenas entre na consciência de um gato e você verá que a sua idéia de um Ser onipotente toma a forma de um gato – apenas numa forma gigante. Entre na consciência de uma flor e você verá que a idéia da flor sobre algo infinitamente mais belo do que ela mesma toma a imagem de uma flor também.

O Bhakta faz o mesmo. Ele sabe que é um ser humano e sente que o seu Deus deveria ser humano em todos os sentidos do termo. A única diferença, ele sente, é que ele é um ser humano limitado, e Deus é um Ser humano ilimitado.

Para um devoto, Deus é ao mesmo tempo cheio de bem-aventurança e misericordioso. A alegria do seu coração o faz sentir que Deus é pleno de bem-aventurança, e as dores do seu coração o fazem sentir que Deus é misericordioso.

Um pássaro canta. Um homem canta. Deus também canta. Ele canta Suas canções dulcíssimas do Infinito, da Eternidade e da Imortalidade através do coração do seu Bhakta.

 

Karma Yoga

Karma Yoga é ação sem desejo realizada por amor ao Supremo. Karma Yoga é aceitação genuína, pelo homem, da sua existência terrena. Karma Yoga é a marcha destemida do homem através do campo de batalha da vida.

O Karma Yoga não vê com os mesmos olhos daqueles que sustentam que as atividades da vida humana não têm importância. O Karma Yoga reivindica que a vida é uma oportunidade divina para servir a Deus. Esse Yoga em particular não é apenas o Yoga da ação física; ele inclui também a vida interior e moral do aspirante.

Aqueles que seguem esse caminho oram por um corpo forte e perfeito. Eles também oram por uma vida longa. Essa vida longa não é apenas o mero prolongamento da vida em termos de anos. É uma vida que aspira pela descida da Verdade, Luz e Poder divinos ao plano material. Os Karma iogins são os verdadeiros heróis na cena terrena, e deles é a vitória divinamente triunfante.

Um Karma iogin é um perfeito estranho às ondas do desapontamento e desespero na vida humana. O que ele vê na vida e nas suas atividades é um propósito divino. Ele sente que é o próprio hífen entre as obrigações terrenas e as responsabilidades do paraíso. Ele tem muitas armas para conquistar o mundo, mas o seu desapego é a mais poderosa. O seu desapego desafia tanto os golpes esmagadores do fracasso quanto os vagalhões de gratificação do ego do sucesso. O seu desapego está muito além tanto das armadilhas das dores excruciantes do mundo quanto do abraço da alegria embargada do mundo.

Muitos aspirantes sinceros sentem que os sentimentos devocionais de um Bhakta e o olho penetrante de um Jnani não têm lugar no Karma Yoga. Nisso eles estão muito errados. Um verdadeiro Karma iogin é aquele cujo coração tem uma fé implícita em Deus, cuja mente tem uma consciência constante de Deus e cujo corpo tem um amor genuíno por Deus na humanidade.

É fácil para um Bhakta esquecer o mundo e para um Jnani ignorar o mundo. Mas o destino de um Karma iogin é diferente. Deus quer que ele viva no mundo, viva com o mundo e viva pelo mundo.

 

Jnana Yoga

Deus tem três olhos. Seus nomes são Bhakti, Karma e Jnana. O Bhakti quer viver na Verdade muitíssimo íntima do seu Pai. Karma quer viver na Verdade universal que tudo permeia do seu Pai. Jnana quer viver na verdade transcendental do seu Pai.

O homem de devoção precisa da proteção de Deus, O homem de ação precisa da direção de Deus. O homem de conhecimento precisa da instrução de Deus.

A fé do Bhakta em Deus e o amor do Karma iogin pela humanidade não interessam ao Jnana iogin, muito menos o inspiram. Ele não quer nada, apenas a mente. Com seu poder mental ele se esforça pelas experiências pessoais da Verdade mais elevada. Ele pensa em Deus como a Fonte do Conhecimento. Ele sente que é através da mente que ele alcançará a sua meta. No início do seu caminho, ele sente que nada é tão importante quanto a satisfação da mente. Finalmente ele percebe que deve transcender a mente se quiser viver no Supremo Conhecimento.

A vida é um mistério. Assim também é a morte. Um Jnana iogin quer perscrutar esses dois mistérios aparentemente insolúveis da criação de Deus. Ele também quer transcender tanto a vida quanto a morte e estabelecer-se no Coração da Realidade Suprema.

O homem vive no mundo dos sentidos. Ele não sabe se esse mundo é real ou irreal. Um homem comum está satisfeito com a sua própria existência. Ele não tem sequer a capacidade de pensar nem o sincero interesse em entrar no significado mais profundo da vida. Ele quer escapar dos problemas da vida e da morte.

Desafortunadamente, não há fuga. Ele tem de nadar no mar da ignorância. Um Jnana iogin, sozinho, pode ensiná-lo como nadar através do mar da ignorância e entrar no Mar do Conhecimento e da Luz.

Um Jnana iogin declara: Neti, neti. “Isso não, isso não.” O que ele quer dizer? Ele quer dizer que há um mundo superior do que o mundo dos sentidos, uma verdade mais elevada do que esta verdade atada à Terra. Ele diz, num certo sentido, que há dois partidos opostos. Um partido consiste da falsidade, da ignorância, da morte. O outro partido consiste da Verdade, do Conhecimento e da Imortalidade. Enquanto proclama: “Neti, neti”, ele pede ao homem para rejeitar a falsidade e aceitar a Verdade, para rejeitar a ignorância e aceitar o Conhecimento, para rejeitar a morte e aceitar a Imortalidade.